{"id":68,"date":"2010-09-28T18:08:52","date_gmt":"2010-09-28T21:08:52","guid":{"rendered":"http:\/\/sandro.eng.br\/wordpress\/?p=68"},"modified":"2010-09-28T18:08:52","modified_gmt":"2010-09-28T21:08:52","slug":"o-professor-pardal-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sandro.eng.br\/wp\/?p=68","title":{"rendered":"O Professor Pardal do Capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/sandro.eng.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/O-Professor-Pardal-do-Capitalismo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-thumbnail wp-image-1026\" src=\"http:\/\/sandro.eng.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/O-Professor-Pardal-do-Capitalismo-150x150.jpg\" alt=\"O Professor Pardal do Capitalismo\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><\/p>\n<p>Cientista paraibano, Silvio Meira tem m\u00e9todos pouco convencionais para lecionar ou dar palestras. Pode aparecer vestido de \u00edndio, \u00e1rabe ou batuqueiro de maracatu.<\/p>\n<p>Por Murillo Camarotto &#8211; Do Recife<\/p>\n<p>Como ocorre todo ano desde 1995, em fevereiro \u00faltimo o bloco de maracatu Cabra Alada se preparava para mais um desfile pelo centro do Recife, festividade j\u00e1 tradicional da quinta-feira que antecede o Carnaval. A poucos quil\u00f4metros dali, no bairro de Boa Viagem, o primeiro escal\u00e3o da operadora de telefonia Claro estava a postos para mais um de seus tamb\u00e9m peri\u00f3dicos encontros, onde seria discutida a estrat\u00e9gia da empresa para o segmento de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Eis que surge na sala de reuni\u00f5es um dos membros da percuss\u00e3o da Cabra Alada, devidamente paramentado com chap\u00e9u, turbante, fitas e demais adere\u00e7os para l\u00e1 de ex\u00f3ticos. A inevit\u00e1vel surpresa dos executivos beirou a incredulidade quando o batuqueiro foi anunciado como o palestrante que teria a fun\u00e7\u00e3o de apresentar os cen\u00e1rios futuros que a operadora deveria considerar na elabora\u00e7\u00e3o de sua estrat\u00e9gia de inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O of\u00edcio de guru no lucrativo circuito das palestras corporativas \u00e9 a mais nova faceta do cientista Silvio Romero de Lemos Meira, batuqueiro da Cabra Alada e uma das maiores autoridades brasileiras em Tecnologia da Informa\u00e7\u00e3o (TI). Paraibano de 55 anos, Meira j\u00e1 foi condecorado com a Ordem Nacional do M\u00e9rito Cient\u00edfico (1999) e a Ordem do Rio Branco (2001). Ele tamb\u00e9m \u00e9 um dos principais respons\u00e1veis por transformar Recife em um respeitado polo de produ\u00e7\u00e3o de software, cujo faturamento anual que j\u00e1 beira os R$ 600 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Sou respons\u00e1vel por descobrir perguntas, e n\u00e3o por achar respostas. A maioria das coisas eu nem sei fazer&#8221;<\/p>\n<p>Em sua sala repleta de indecifr\u00e1veis avisos nas paredes, como f\u00f3rmulas de matem\u00e1tica e s\u00edmbolos ex\u00f3ticos, Silvio conta que ensinar as empresas a fazer uso estrat\u00e9gico das redes sociais tem sido o tema principal de suas palestras mais recentes, que andam custando em torno de R$ 15 mil por 40 minutos. Segundo ele, as corpora\u00e7\u00f5es brasileiras, em sua vasta maioria, usam as redes sociais de forma &#8220;ing\u00eanua e rudimentar&#8221;, motivo pelo qual \u00e9 comum ver o cientista desafiar graduados executivos, ao dizer que suas companhias n\u00e3o passam de &#8220;abstra\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;As empresas t\u00eam que usar as redes sociais como estrat\u00e9gia de neg\u00f3cio. Os exemplos s\u00e3o mundiais. Empresas que botaram aplica\u00e7\u00f5es em redes sociais para relacionamento com os clientes, onde os funcion\u00e1rios tamb\u00e9m foram inclu\u00eddos, aumentaram em 50% a performance de atendimento ao cliente final&#8221;, exemplificou Meira. &#8220;H\u00e1 outras que reconhecem que 70% do desenvolvimento de produtos \u00e9 feito em comunidade, ou seja, trazendo as pessoas para dentro, para sistematizar a intera\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao produto que ser\u00e1 lan\u00e7ado&#8221;, explicou.<\/p>\n<p>Entusiasmado, Meira citou o exemplo da montadora americana Local Motors, de Boston, que aglutinou em uma rede social um ex\u00e9rcito de quase 40 mil designers para contribu\u00edrem na confec\u00e7\u00e3o de um novo modelo. &#8220;O carro foi todo desenhado de fora para dentro da empresa e ningu\u00e9m ganhou um centavo. As pessoas est\u00e3o ali (na rede) porque elas t\u00eam um ideal de carro e ele come\u00e7ou a ser efetivamente produzido. Esse \u00e9 um caso paradigm\u00e1tico desse neg\u00f3cio&#8221;, conta o cientista.<\/p>\n<p>Quando se fala em Brasil, ele ressalta, as oportunidades s\u00e3o ainda mais evidentes. Cerca de 95% dos usu\u00e1rios de internet no pa\u00eds est\u00e3o em alguma rede social, ante uma m\u00e9dia mundial bem inferior, de 72%. &#8220;Se o seu neg\u00f3cio tem a ver com o Brasil, ele tem tudo a ver com redes sociais. E voc\u00ea tem que ter uma estrat\u00e9gia para isso, e para ontem&#8221;, recomenda Meira.<\/p>\n<p>O professor acredita, por\u00e9m, que o Brasil est\u00e1 na contram\u00e3o dessa l\u00f3gica, especialmente devido ao fato de que 55% das empresas adotam algum tipo de restri\u00e7\u00e3o ao uso de redes sociais pelos funcion\u00e1rios. Essas medidas soam, na sua avalia\u00e7\u00e3o, como um reconhecimento de que o trabalho ali desenvolvido &#8220;\u00e9 t\u00e3o desinteressante que voc\u00ea tem que cercear a liberdade das pessoas, para que elas continuem fazendo aquela &#8220;porcaria&#8221; que est\u00e3o fazendo&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;As empresas precisam se redesenhar ao redor de um novo tipo de indiv\u00edduo, que sabe muito mais, que est\u00e1 mais conectado. Agora h\u00e1 um &#8220;homus conectadus&#8221; na jogada.&#8221;<\/p>\n<p>Crian\u00e7a curiosa, Meira soube aproveitar a chegada da eletricidade a Tapero\u00e1, no interior da Para\u00edba, no in\u00edcio dos anos 1960. &#8220;De repente, tinha uma tomada na parede e a possibilidade de a gente enfiar coisas ali e ver se explodia. Eu era o cara experimental&#8221;, brinca o professor, incentivado na \u00e9poca por sua fam\u00edlia a trilhar o caminho da ci\u00eancia. &#8220;Eu ganhava aqueles kits do pequeno qu\u00edmico, aquele projeto de montar r\u00e1dio do Instituto Universal Brasileiro. A\u00ed comecei a estudar F\u00edsica e n\u00e3o tinha alternativa: fui fazer o curso de engenharia.&#8221;<\/p>\n<p>Formado pelo Instituto Tecnol\u00f3gico da Aeron\u00e1utica (ITA) em 1977, Meira cursou mestrado em Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutorado em Computa\u00e7\u00e3o na Universidade de Kent, na Inglaterra, de onde retornou em 1985. A partir de ent\u00e3o, passou a dar aulas na UFPE e iniciou a montagem do centro de inform\u00e1tica nessa universidade.<\/p>\n<p>Segundo Meira, foi ali que come\u00e7ou a nascer o cientista dos neg\u00f3cios ou o &#8220;vendedor de futuro&#8221;, como ele mesmo se classifica. Sob seu comando, o centro de inform\u00e1tica passou a funcionar como neg\u00f3cio, incubando novas empresas, identificando car\u00eancias no mercado e oferecendo solu\u00e7\u00f5es. Em 1996 surgiu o Centro de Estudos em Sistemas Avan\u00e7ados do Recife (C.E.S.A.R), \u00f3rg\u00e3o sem fins lucrativos que fatura hoje R$ 50 milh\u00f5es por ano e tem filiais em S\u00e3o Paulo, Sorocaba, Bras\u00edlia e Curitiba.<\/p>\n<p>Meira atribui ao complicado processo de estrutura\u00e7\u00e3o do centro de inform\u00e1tica o despertar de sua dial\u00e9tica e capacidade de lideran\u00e7a e persuas\u00e3o. &#8220;Antes eu era um &#8220;lone ranger&#8221; (cavaleiro solit\u00e1rio)&#8221;, disse ele, com mais um dos termos estrangeiros que profere a todo instante.<\/p>\n<p>No C.E.S.A.R , Meira ocupa o exc\u00eantrico posto de cientista-chefe, no qual tem a fun\u00e7\u00e3o de identificar necessidades das empresas no segmento de inova\u00e7\u00e3o. Cabe ao restante da equipe elaborar e oferecer as solu\u00e7\u00f5es. &#8220;Sou respons\u00e1vel por descobrir perguntas, e n\u00e3o por achar respostas&#8221;, afirma. &#8220;Na realidade, eu atuo como um &#8220;agent provocateur&#8221; (agente provocador). N\u00e3o sou o cara que faz. A maioria das coisas eu n\u00e3o sei nem fazer&#8221;, admite.<\/p>\n<p>&#8220;Meira tem a capacidade de criar o sonho e mobilizar as pessoas na sua realiza\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 o cara que puxa a fronteira adiante. O papel dele \u00e9 criar mercado, com sua capacidade de visualiza\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia fora do comum. Ele verbaliza e vende&#8221;, resume o consultor Cl\u00e1udio Marinho, ex-secret\u00e1rio de Ci\u00eancia e Tecnologia de Pernambuco e amigo de Meira.<\/p>\n<p>Em 2000, os dois lideraram o projeto de implanta\u00e7\u00e3o do Porto Digital, complexo que re\u00fane hoje no centro do Recife cerca de 160 empresas do ramo de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, entre elas gigantes como Microsoft e IBM. Uma das mais antigas no porto \u00e9 a Neurotech, que produz sistemas voltados ao setor financeiro. Um de seus s\u00f3cios, Paulo Adeodato, diz que Silvio Meira &#8220;tem neur\u00f4nios a mais&#8221;. &#8220;Seu papel hoje n\u00e3o \u00e9 mais de cientista, mas sim de difusor da aplica\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia na sociedade&#8221;, avalia.<\/p>\n<p>Instado a desvendar um dos lembretes colado na parede de sua sala, no qual se lia a palavra MICE, Silvio tentou resumir a tarefa de rentabilizar a rela\u00e7\u00e3o entre universidade e mercado. &#8220;Se voc\u00ea quiser levar a educa\u00e7\u00e3o direto para o mercado, esque\u00e7a. educa\u00e7\u00e3o tem que gerar conhecimento, que gera inova\u00e7\u00e3o e s\u00f3 a\u00ed se vai para o mercado&#8221;, explicou ele, apontando para as letras que formam a palavra MICE (Mercado, Inova\u00e7\u00e3o, Conhecimento, Educa\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Apesar de todo o conhecimento t\u00e9cnico, a capacidade empreendedora \u00e9 o tra\u00e7o mais lembrado da personalidade de Silvio Meira. &#8220;Ele sempre chamou a aten\u00e7\u00e3o por ser uma pessoa brilhante, din\u00e2mica, carism\u00e1tica. \u00c9, sem d\u00favida, um grande cientista e engenheiro, por\u00e9m com um grande poder de mobilizar pessoas&#8221;, avalia S\u00e9rgio Resende, ministro de Ci\u00eancia e Tecnologia e amigo de longa data de Meira.<\/p>\n<p>Tantos elogios, evidentemente, inflam o ego. Um ex-aluno da UFPE, que preferiu n\u00e3o ter seu nome publicado, se queixa da soberba do professor Meira, ao afirmar que ele se acostumou a n\u00e3o ser contestado e que seu humor oscila quando isso acontece. &#8220;Silvio tem uma megalomania bem trabalhada no que tange ao marketing pessoal&#8221;, brinca o ex-secret\u00e1rio pernambucano, Cl\u00e1udio Marinho.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do posto no C.E.S.A.R, Silvio Meira preside o conselho gestor do Porto Digital, d\u00e1 aulas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na UFPE, produz um boletim semanal na r\u00e1dio CBN, uma coluna mensal na &#8220;Folha de S\u00e3o Paulo&#8221; e alimenta seu blog. Por estar &#8220;conectado 24 horas por dia&#8221;, garante que as cerca de tr\u00eas palestras por semana n\u00e3o atrapalham as demais atividades. Seu amigo Marinho cr\u00ea, no entanto, que as palestras ser\u00e3o cada vez mais frequentes. &#8220;Esse \u00e9 o neg\u00f3cio dele hoje&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Meira diz que a fantasia de batuqueiro foi uma condi\u00e7\u00e3o imposta por ele para palestrar aos executivos da Claro, j\u00e1 que n\u00e3o haveria tempo h\u00e1bil para se trocar e chegar a tempo na Cabra Alada. No entanto, apari\u00e7\u00f5es pouco convencionais ocorreram outras vezes. &#8220;J\u00e1 fui dar aula na faculdade vestido de \u00e1rabe e com cocar de \u00edndio. \u00c9 para provocar um pouco as pessoas, que muitas vezes est\u00e3o na zona de conforto&#8221;, contou ele, pouco antes de encerrar a entrevista, com a frase: &#8220;Sorry, your time is over!&#8221; (Lamento, seu tempo acabou!).<\/p>\n<p>Fonte: Valor Econ\u00f4mico<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cientista paraibano, Silvio Meira tem m\u00e9todos pouco convencionais para lecionar ou dar palestras. 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